O tênis velho chega na frente
Zero quilômetro, para valer a pena, só se for carro. Para correr, bom mesmo é calçar um tênis rodado. Quem garante é o fisiologista Júlio Cerca Serrão, que entende do assunto como ninguém. Afinal, tem uma tese de doutorado sobre calçados esportivos e continua pesquisando o tema no Laboratório de Biomecânica da Universidade de São Paulo (USP). "Fizemos testes de zero a mil quilômetros e os tênis continuavam funcionando perfeitamente", revela. Isto é, a proteção contra o impacto continuava intacta, mesmo depois dos 600 quilômetros, marca em que os corredores costumam aposentar os calçados. "Ao final, só houve um problema: eles estavam meio sujos e feios", brinca o especialista.
A pesquisa ainda mostrou que a área de contato entre a planta do pé e a palmilha do calçado aumentou 12% do zero aos 100 quilômetros. "Com o tempo de uso, o tênis vai se desgastando e se acomodando ao pé", explica Serrão. "O ajuste melhora a resposta biomecânica, diminui a pressão e aumenta o desempenho do atleta", resume.
Um último aviso: muitos corredores têm o hábito de deixar o tênis "descansar" para evitar o chamado bottom-up — a compactação do material do solado causada pelos saltos. Tanto zelo com o calçado é desnecessário, mas com o nosso corpo... "Todo mundo se preocupa com o tênis e se esquece de cuidar de si", lamenta Júlio Serrão. O tênis tira dia de folga, mas o corredor não. "Em geral as fraturas por estresse são causadas pelo excesso de treino, isto é, por sobrecarga mecânica repetitiva", avisa o ortopedista Arnaldo Hernadez, chefe do Grupo de Medicina Esportiva da Faculdade de Medicina da USP. O ideal é programar melhor os treinos, mesclando volume e intensidade e prevendo dias de descanso. Para você, não para o tênis.
Fonte: http://saude.abril.com.br/edicoes/0264/corpo/conteudo_90820.shtml ( texto editado por Ailton Zulu)
Júlio Cerca Serrão
Licenciado (1993) em Educação Física pela Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP), mestrado (1996) em Ciências da Motricidade pelo Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista, doutorado (1999) e livre-docência (2007) pela EEFE-USP. Atualmente é professor associado da EEFE-USP, onde exerce a coordenação do Laboratório de Biomecânica e a presidência da Comissão de Graduação. Tem experiência na área de Biofísica, com ênfase em Biomecânica. Sua linha de pesquisa envolve a Biomecânica do Esporte, a Biomecânica da Locomoção, a Biomecânica do Exercício, e a Biomecânica do calçado. Ocupa a posição de Editor-chefe da Revista Brasileira de Biomecânica.
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